Alfaia
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Texto de Alberto Cajueiro

A alfaia é um tambor de grande porte amplamente associado ao Maracatu Nação, manifestação cultural afro-brasileira consolidada em Pernambuco, especialmente nas cidades de Recife e Olinda.
Sua origem está vinculada às matrizes africanas trazidas ao Brasil durante o período colonial, particularmente das regiões centro-ocidentais do continente africano, como Congo e Angola, cujas tradições musicais utilizavam tambores de grandes dimensões em rituais, cerimônias de autoridade e celebrações comunitárias.
No contexto do Brasil colonial, os povos africanos escravizados recriaram seus instrumentos com os materiais disponíveis na colônia, adaptando técnicas construtivas tradicionais.
A alfaia passou a ser confeccionada com corpo de madeira — inicialmente a partir de troncos escavados em especial da palmeira brasileira Macaíba, e posteriormente, com ripas ajustadas em formato cilíndrico — e com peles tensionadas por meio de cordas. Essa configuração produz um som grave e potente, que sustenta a base rítmica do maracatu.
O desenvolvimento histórico da alfaia está diretamente relacionado ao surgimento do Maracatu Nação, manifestação que remete às cerimônias de coroação dos chamados “Reis do Congo”, instituições reconhecidas no período colonial como forma de organização simbólica das irmandades negras (TINHORÃO, 1988).

Nessas celebrações, a música desempenhava papel central, e os tambores assumiam função não apenas estética, mas também ritual e identitária.
Segundo Gilberto Freyre (1933), a cultura brasileira formou-se por meio de intensos processos de mestiçagem, nos quais práticas africanas foram recriadas e integradas à realidade colonial. Nesse sentido, a alfaia pode ser compreendida como produto desse processo de ressignificação cultural, constituindo-se em símbolo de resistência e permanência das tradições afro-brasileiras.
Além de seu papel musical, a alfaia representa um elemento de afirmação identitária e memória coletiva. Para estudiosos da cultura popular pernambucana, como Guerra-Peixe (1980), os instrumentos do maracatu preservam estruturas rítmicas de forte ascendência africana, mesmo após séculos de transformações sociais. Assim, a alfaia não é apenas um instrumento de percussão, mas um artefato histórico que materializa processos de diáspora, adaptação cultural e resistência simbólica.
Atualmente, a alfaia ultrapassa o espaço tradicional dos cortejos e integra grupos percussivos, projetos educativos e circuitos de turismo cultural, mantendo-se como um dos principais símbolos sonoros de Pernambuco.
No coração do Batuques de Pernambuco pulsando com sua força, reina a alfaia, é ela que faz as ladeiras tremerem, os corações acelerarem, com um som de uma tonelada




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